LITHA: A vitória da Luz

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Em sua jornada pelos céus, o Grande Pai Sol atinge o ápex – ponto mais alto de sua trajetória – trazendo consigo o dia mais longo do ano e anunciando a vitória da luz sobre a escuridão.

No hemisfério sul, o Solstício de Verão ocorre no dia 21 de Dezembro.
Litha é portanto, uma celebração – essencialmente – solar. A luz solar representa a centelha divina que todos os seres carregam dentro de si, a razão, as certezas, a verdade e a justiça.

É tempo de celebrar o triunfo da vida e da verdade. Renovar nossos votos de dignidade e honra, reassumindo nosso compromisso com a Grande Obra e com os Neteru. A liberdade gera poder, que sempre cria grandes responsabilidades – sobre nossos atos e a realidade ao nosso redor.

Para o povo egípcio, essa consciência estava sempre presente nas figuras de Maat – Deusa da Verdade-Justiça – e do próprio Faraó (O Rei Divino).

“…cada rei sucessivo, embora não fosse um deus, trazia nas veias o sangue de Rá, o Divino Sol, de quem era o representante vivo na Terra. Por essa razão, não era o rei o pai de seu filho, mas o Sol, o Divino Sol.”1

O Faraó era considerado descendente direto de Rá – o Grande Deus Falcão, o próprio Sol. A essência de Rá transcende o “Sol Físico”, Ele é a encarnação do “Divino Sol”. O Divino Sol é a fonte primordial de toda a Luz: verdade e vida. Todo “homem” é um “Portador da Luz” e deve, portanto, buscar o despertar para “sua verdadeira natureza em Rá, alcançando-se ao reino da pura Luz, à ´Barca de Milhões de Anos´…”1

O Grande Rá em sua Barca de Milhões de Anos.

O Grande Rá em sua Barca de Milhões de Anos.


“O Divino Sol, caracterizado pelos egípcios antigos como Rá, era o Centrum, não apenas do Cosmos manifesto, mas de todos os reinos da existência, de que tudo emanou e em que tudo se dissolverá outra vez.” 1

O grande Criador, Pai dos Deuses. RÁ é o Sol, a própria luz do mundo. Luz da consciência e razão, que afasta a dúvida e indefinição da penumbra. RÁ é o autogerado, Aquele que nasceu de sua própria vontade. É o Senhor da magia, cujas palavras de poder moldam tudo o que existe. Ele é a própria vida.

É para Ele que nos voltamos em Litha.
Devemos cantar em sua honra, agradecer por sua  presença  inspiradora e, como dito anteriormente, renovar nosso compromisso com tudo o que Ele representa. Devemos despertar para a nossa Consciência Solar: Devemos ser o Sol de nosso mundo particular – não para ocupar o centro e alimentar nosso ego – mas para nutrir, vigiar, proteger e criar!

Entre os muitos mitos que envolvem este Deus, escolhemos o que traduz seu compromisso com a verdade-justiça e assegura a vitória da luz sobre as trevas: O combate de Rá e Apep.

Rá enfrenta Apep, noite à dentro.

Rá enfrenta Apep, noite à dentro.

Apep é o Deus Serpente que representa o Caos e a Escuridão, o domínio noturno. É a antítese de Rá, o ponto de equilíbrio. Aquele que morre e renasce diariamente para assegurar a existência da noite – “engolindo” a Barca do Sol.

É a força de Rá que assegura o retorno diário do Sol – e a manutenção da vida. Com base neste mito – e num excerto do Livro dos Mortos2, faremos nossa ação ritual.

Altar de Litha :: Garden of Spells

Altar de Litha

O Ritual

Antes de iniciar o ritual, recomendo realizar uma meditação ativa de centramento – direcionada a Rá, o “Lótus Ankh”

Para o Ritual propriamente dito, faça sua invocação à Rá e Identifique tudo o que representa a Apep em seu mundo particular. Tendo isso em mente, traduza em palavras-chave. Então, num pedaço de papiro virgem, escreva estas palavras em sequência, formando uma linha sinuosa como uma serpente. Enrole o papiro e apresente-o aos Deuses:

“Este é Apep (Apópi/Apópis)! A grande serpente do abismo, Senhor do Caos e desordem. O engolidor de Sóis”.

Faça, com suas próprias palavras, um encantamento de constrição, como o seguinte trecho do Livro dos Mortos2:

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As únicas palavras que devem ser as mesmas, são:

“Eu preparo tuas cordas, oh Rá! (…) Apep caiu! É AMARRADO E ACORRENTADO PELAS DIVINDADES DO SUL, DO NORTE, DO LESTE E DO OESTE. Todas elas o acorrentaram!”

Faça um nó em volta do papiro enrolado, com linha preta forte, a cada grupo de divindades (divindades do sul – um nó – do norte – outro nó… ). Ao fim, entregue o papiro às chamas e observe-o ser consumido.

Adicione ervas solares e um punhado de sal grosso às chamas e carregue a lâmina de seu athame nelas. Infunda este poder no conteúdo de seu cálice e beba.

ervas solares de Litha

Ervas Solares: Canela, Calêndula, Eufrásia e R. Lótus.

Honre o Grande Pai Rá e as Grandes Mães Solares Auset e Sekhmet.
Invoque o poder da verdade e da luz para que estejam sempre contigo e com os teus bem amados.

Que a luz da verdade ilumine o caminho à tua frente, e a chama de Rá mantenha teu coração aquecido e puro!
Em hotep,
FELIZ LITHA!

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Ref. Citações:
1 – Versluis, Arthur. Mistérios Egípcios. Ed. Círculo do Livro.
2 – Desconhecido. O livro dos Mortos do Antigo Egito. Ed. Hemus.

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BELTANE: equilíbrio nascido do êxtase

Após a renovação ocorrida em Ostara, é hora de celebrarmos o ápice da Primavera e – com ele – a presença pujante da luz e do calor.  No hemisfério sul, este sabbath ocorre no dia 31 de Outubro.
Beltane representa a consumação do desejo, a grande fusão através do Casamento Sagrado dos Deuses. É a celebração da paixão e da vida.

Neftis e Osíris

Nebthet e Ausar.

A mitologia egípcia traz vários pares divinos enamorados, mas, acredito que o mito que melhor retrata o amor e desejo ardentes – típicos de Beltane, seja o do encontro de Nebthet (Néftis) e Ausar (Osíris). Vamos ao mito:

…Na chamada Enéada de Heliópolis, temos os irmãos gêmeos Ausar, Auset, Nebthet e Set, sendo o primeiro par um casal e o segundo, outro. Entretanto, Nebthet nutre uma profunda admiração por Ausar que, com o tempo, se transforma em desejo incontrolável. Então, Nebthet – Senhora da noite e dos encantos – faz uso de magia para se passar por sua irmã Auset e deita-se com Ele (esta união dará origem a Anpu – Anúbis).
Alguns estudantes de mitologia tentam encontrar outras motivações – além do desejo de Nebthet – “justificando” o ato com sua provável insatisfação em relação a seu companheiro Set (infértil como o deserto sob seu domínio e de temperamento volátil), ou ainda, alguma rivalidade com a irmã Auset (alegação sem evidência mitológica – já que, a própria Auset releva este episódio, sem maiores problemas).

No entanto, fica claro que são a paixão e desejo que movem os Deuses nesse episódio – levando Nebthet a romper tabus, pactos de confiança e lealdade, além de lançar mão de um feitiço de glamour, levando Ausar ao engano; Ele corresponde prontamente ao desejo e encanto gerado por essa “nova” energia – que pensa ser emanada de sua amada esposa – Auset.

No mito encontramos a essência de Beltane: A busca da satisfação completa dos desejos, a troca de energias, a complementaridade – o equilíbrio nascido do êxtase.
Esta data representa o ápice da energia criativa, é um convite para celebramos nossas paixões e desejos… alimentá-los, investir em nossos sonhos e aspirações – colocar a energia em movimento, permitir-se, entregar-se ao êxtase criativo.

Partindo do mito, temos os elementos básicos para uma Celebração de Beltane:

Altar de Beltane :: Garden of Spells

Altar de Beltane

A Deusa: Nebthet.

O Deus: Ausar.

Com isso em mente, construa suas invocações. Peça aos Deuses por inspiração e força para empreender as ações necessárias à execução de seus planos.

Celebre verdadeiramente, dance e cante até a completa exaustão. Exalte o amor e o desejo, celebre a vida!

Como ação ritual, ofereça canela, amêndoas e rosas vermelhas ao fogo, contemple as chamas enquanto faz suas invocações. Acenda 3 velas vermelhas: a primeira em honra à Deusa, a segunda para o Deus e a terceira representando a consumação do seu desejo. Acenda esta última vela na chama do seu caldeirão após a dança ritual. Sinta o intenso fluxo de energia que atravessa seu corpo após a dança, enquanto contempla a chama da terceira vela. Agradeça.

Feliz Beltane!

IMBOLC: O Despertar

Auset amamentando Hórus

Wadjet, Tehuti, Auset amamentando Heru, Amun e Nekhbet.

A fase mais rigorosa do inverno ficou para trás, dando lugar a dias mais longos e amenos.
As energias latentes começam a despertar, preparando o solo e as sementes para a chegada da primavera.
Para os animais é época de lactação, e para nós, é tempo de “alimentar” nossos desejos e sonhos. Para isso, devemos buscar o “despertar da CONSCIÊNCIA”Examinar todas as suas pendências, transpor obstáculos e agir para concluir os planos iniciados.

Na mitologia egípcia, estas temáticas podem ser visualizadas nos mitos referentes à infância de Heru (Hórus).
Celebramos a partida de Ausar em Samhain, o nascimento de Heru em Yule e agora, seu crescimento e vigor!

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Heru, Senhor da Luz, Ordem e Justiça.

Heru é visto como o próprio Sol, seu nascimento e ascensão acompanham o ritmo natural rumo à primavera e verão.
Sua infância e juventude não foram fáceis,  além dos obstáculos naturais impostos pela vida, teve de enfrentar vários ataques de Seth.
Portanto, este período representa a batalha pelo retorno do Sol.
Assim como Ele, devemos nos fortalecer, cicatrizar as feridas de antigos combates e preparar terreno para o novo.

Heru foi criado por sua mãe Auset – e protegido pelas deusas serpentes Wadjit e Nekhbet.
Estas deusas representam o poder protetor do sol, sabedoria, vida e transformação (devido a suas constantes trocas de pele).
Dedicarei o próximo post a elas.

Partindo do mito, temos os elementos básicos para uma Celebração de Imbolc:

Altar de Imbolc

Altar de Imbolc

As Deusas: Auset, Wadjet e Nekhbet.

O Deus renascido / Criança da promessa: Heru.

Com isso em mente, construa suas invocações. Peça às Grandes Mães por proteção e força para empreender as ações necessárias à execução de seus planos. Mergulhe em sua intensa luz e sinta-se regenerado e pleno.
Faça uma oferenda ao Grande Pai Heru, nutra-o com algo feito por você. Pode ser uma pintura, um desenho, uma porção de alimento, um poema ou canção: Use a criatividade! Exalte o Sol e agradeça por seu retorno.

Como ação ritual, queime ervas solares (canela, girassol e cravo), contemple as chamas enquanto faz suas invocações. Entregue sua oferenda às chamas e medite sobre a presença da Grande Mãe em sua vida, agradeça.

Feliz Imbolc!

YULE: O triunfo da vida, ordem e justiça

Yule: O triunfo da vida, ordem e justiça

Yule: O triunfo da vida, ordem e justiça

Yule inicia um novo ciclo, a renovação da vida.
A força e o vigor da criação, que se encontravam latentes, agora despertam.
A noite do Solstício de Inverno (21 de junho no hemisfério sul), mais longa que as demais, anuncia a vinda de dias mais longos: o retorno da LUZ.

Na mitologia egípcia, a temática de renascimento e transformação através da morte se traduz nos mitos da morte de Ausar e do nascimento de Heru (Hórus).

Grande Mãe Auset amamentando Heru.

Grande Mãe Auset amamentando Heru.

Logo após o assasinato de Ausar, as grandes Auset (Ísis) e Nebthet (Néftis) partiram em busca de seus restos mortais e – com auxílio de Anpu (Anúbis) – reconstituíram seu corpo. Auset reanimou-o magicamente e, juntos, conceberam Heru – o Senhor da Luz, defensor da ordem e justiça.

Seu nascimento é uma resposta direta ao assassinato de seu pai e, por conseguinte, ao caos estabelecido por Set. Enquanto seu pai – Ausar – atua como juiz supremo do tribunal das almas, Heru distribui sua justiça entre os vivos e assegura a manutenção da ordem natural e dos ciclos.
Portanto, o grande senhor da cabeça de falcão é, acima de tudo, um vingador. É aquele que se levanta contra a injustiça e iniquidade, distribui as recompensas e coloca todos em seus devidos lugares.

Heru, Senhor da Luz, Ordem e Justiça.

Heru, Senhor da Luz, Ordem e Justiça.

O rompimento de barreiras e obstáculos, a conquista do que parecia perdido e a concretização das promessas de Samhain são as marcas desta data.
Para muitos ocultistas, Heru representa a síntese das eras anteriores: A Era de Auset, marcada pelos cultos à Grande Mãe e A Era de Ausar, caracterizada pelo culto ao Grande Pai Sacrificado. A Era, ou Aeon / Éon de Heru seria a síntese, uma era de profunda renovação da humanidade.

Partindo do mito, temos os elementos básicos para uma Celebração de Yule:

Altar de Yule.

Altar de Yule.

A Deusa, em sua face mãe: Auset.

O Deus renascido / Criança da promessa: Heru.

Com isso em mente, construa suas invocações. Peça ao Grande Heru pela libertação através da justiça, força e inspiração para seguir o bom caminho.

À Grande Mãe Auset, proteção e intuição.

Como ação ritual, queime ervas solares (calêndula, canela, girassol, cravo e hortelã), consagre uma vela branca ou amarela (de sete dias) nesta fumaça. Contemple a chama e medite sobre suas novas resoluções. Faça isto durante o ritual e repita a meditação ao despertar, durante toda a semana.
Como Yule é também um momento muito propício para antever fatos futuros, o uso de métodos divinatórios é amplamente recomendado.

Feliz Yule!

SAMHAIN: A morte como caminho

Altar de Samhain

Uma das características que tornam o Paganismo e a Bruxaria tão especiais é a pluralidade . A capacidade de aceitar, compreender e lançar mão das diferenças filosóficas para alcançar uma experiência espiritual mais completa. Através dela é possível reconhecer ensinamentos comuns – em diferentes contornos e matizes, como ocorre nas diversas Tradições Mágicas.

Tendo isso em mente, apresentarei – ao longo do ano – uma visão egípcia dos festivais da Roda do Ano, começando pelo Samhain.

Samhain significa, sobretudo, o necessário fim de um ciclo para o início de um novo. Representa a eterna renovação da vida através da morte. A transformação mais profunda é atingida pelo sacrifício mais sublime.

Arcano XIII: A Morte

Arcano XIII: A Morte como caminho para a transformação.

Em termos naturais, o sabbath ocorre no momento em que o calor dá lugar ao frio e a luz cede à escuridão crescente (01 de maio no hemisfério sul).
Já na mitologia egípcia, a temática de sacrifício e transformação através da morte se traduz, perfeitamente, no mito da Morte de Ausar (Osíris).

Hórus, Osíris e Ísis.

Heru, Ausar e Auset.

No início, o grande Ausar era um deus da agricultura e civilidade, governava como faraó por toda a extensão fértil do Egito. Até que seu irmão Seth, movido pela inveja e ira, o assassinou. Então, as grandes Auset (Ísis) e Nebthet (Néftis) partiram em busca de seus restos mortais e – com auxílio de Anpu (Anúbis) – reconstituíram seu corpo. Ausar RENASCE como senhor do submundo, juiz supremo da sala das duas verdades – o tribunal das almas, onde define o destino das almas imortais que lá chegam.

Tribunal de Ausar

Heru conduz uma alma até Ausar.

Neste primeiro momento, podemos vislumbrar a dimensão da transformação que a morte trouxe a Ausar. Passou de uma divindade terrena de importância “média” – dividindo atribuições com outros deuses – para uma posição soberana no além vida, como Senhor de Duat, o Reino dos Mortos. Pode-se concluir que o ardil de Seth voltou-se duplamente contra ele. Pois, além do fato de Ausar ter ascendido através da morte, Auset dará luz a Heru (Hórus) – senhor da luz, filho e vingador de Ausar. Heru é um defensor da ordem, bondade e justiça, uma verdadeira antítese do tio.
Portanto, ao matar o corpo físico de Ausar, Seth o transforma duplamente, pois ele ascende e renasce em Heru – que comunga de sua essência.

Samhain diz respeito à transformação, uma ruptura essencial à manutenção do equilíbrio e da vida. Enquanto Yule, o próximo festival da roda (21 de junho), é o triunfo da vida sobre a morte e será representado pelo renascimento de Ausar em Heru.
Partindo do mito, temos os elementos básicos para uma Celebração de Samhain:

Samhain Altar

Altar de Samhain.

A Deusa, simultaneamente mãe e viúva: Auset.
O Deus sacrificado: Ausar.
A esperança do retorno da luz: Heru.

Com isso em mente, construa suas invocações. Peça ao Grande Pai Ausar a sabedoria e coragem necessárias para mudar velhos hábitos, transcender os padrões impostos e perseverar.
À Grande Mãe Auset, a capacidade de se reconstruir e moldar seu próprio destino. Abra-se a seus sábios conselhos e perceba sua intuição aflorar.
Como ação ritual, ofereça todo o pesar de seu coração às chamas e peça para que o Grande Anpu o conduza à Auset para ser magicamente transformado.

Feliz Samhain!